domingo, 25 de janeiro de 2009

Universidade: mediocridade se faz assim, por Unanimidade!





É difícil, para um brasileiro criado na Universidade Federal Pública, entender o que os portugueses, como também os europeus de forma geral, entendem por Universidade. Aqui se paga mensalidade para estudar, tal qual nas Universidades privadas do Brasil. Universidade como um serviço pago - não só pelo Estado mas, covardemente, pelo estudante- não deixa de ser curioso para os padrões de dinheiro que orbitam nas empresas e nos Estados aqui na Europa. Se lembrarmos que em países como Alemanha, França, Suécia...ainda há medidas públicas como seguro-desemprego, auxílio-moradia... que transferem dinheiro do Estado para o "contribuinte", observamos como é intrigante que para esses auxílios individualizados (aos europeus) o Estado tenha muita verba, mas para fomentar uma Universidade Pública e gratuita para todos, inclusive para os não-europeus, já não há dinheiro.

Intrigante é, também, a postura dos brasileiros encantados com a riqueza e o padrão de vida da Europa, que rasgam elogios às ajudas assistencialistas direcionadas aos próprios europeus, mas nada falam das Universidades/Empresas daqui.

É só conhecer alguns trabalhadores portugueses daqui de Coimbra pra perceber que o salário médio do comércio daqui - 450 euros- não dá pra pagar uma mensalidade de 300 euros da Universidade. Parte significativa das famílias de Coimbra não tem como sustentar seus filhos na Universidade. Resultado num país que tem boa parte de sua renda vinda do setor de serviços: lá se vão os jovens lusitanos trabalhar no comércio (disputando os empregos com os imigrantes).

Os acontecimentos de outubro para cá no que diz respeito a uma concepção de Universidade tem sido um verdadeiro pacto de mediocridade. Como parte de uma tendência ampla de reformas da Univerdidade propostas pela União Européia, foi criado um Conselho Geral para deliberar os assuntos decisivos sobre a Universidade (nomear Reitor, alterar o Estatuto da Universidade, criar ou destituir orgãos da Universidade, fixar o valor das mensalidades...) formado por, atenção, 18 professores, 5 estudantes, 2 funcionários e 10 "personalidades" externas à Universidade!! Onde tem personalidades externas leia-se empresários e políticos de direita, ou o leitor pensa que vão chamar o porteiro aqui do prédio? Mais abaixo coloquei o link dos 10 que foram aprovados. Curioso é que na primeira reunião deste Conselho foi definido o presidente do Conselho e, interessante, é uma dessas "personalidades de destaque": trata-se de um mega-banqueiro daqui de Portugal, que foi fundador do Banco BPI, além de várias outras proezas na sua vida "dedicada ao conhecimento universitário". Só a título de exemplo, uma das primeiras frases de Artur Santos Silva, banqueiro mor e "cérebro" da Universidade de Coimbra: «estas mudanças contribuam para transformar em ainda mais valor económico toda a grande capacidade de produção de conhecimento que existe nas universidades». Recordo que a eleição de tão ilustre presidente foi decidida por Unanimidade dentro do Conselho! Lembro também que um dos membros deste conselho é Boaventura de Sousa Santos (já tão divulgado neste blog), que lançou chapa (por isso foi eleito para o Conselho como professor) onde defendia, na totalidade, estas reformas da Universidade.

Lembram as Assembléias de Professores? Algo parecido tem aqui com o que é chamado de Senado da Universidade. Mas, tem agora apenas caráter consultivo, porque apenas o Coselho Geral possui poder deliberativo. E aí, o que vocês acham, será que a proprina (mensalidade) vai aumentar?

Mas o aumento das propinas é coisa pequena, vem propostas mais substanciais. Tá sendo discutida aqui a possibilidade da Universidade de Coimbra tornar-se uma Fundação Privada, seguindo os passos de outras Universidades européias. Bom, com o Conselho Geral tão engajado nessas "mudanças", com um presidente tão atento aos saberes acadêmicos e a democratização dos mesmos, penso que a Universidade de Coimbra pode, como quer nosso banqueiro-acadêmico, torna-se uma Universidade cada vez mais européia e, acrescentaria eu, cada vez mais cara e elitista, aos moldes das Universidades inglesas.

Links: Atribuições do Conselho Geral: http://www.uc.pt/senado/orgaos_governo/
Currículo do Presidente e relação dos membros do Conselho: http://www.uc.pt/administracao/comuniqando/em_foco/presidente_cguc/

Aprovação por Unanimidade do presidente do Conselho: http://www.acabra.net/artigo.php?id_artigo=4064

Por último, mas não menos importante, deixar notório que houve estudantes contra estas medidas, mas que não tiveram como vencê-las.

Um comentário:

  1. Temos que lembrar que a Educação é um direito de todo cidadão, e que as despesas com esse elemento são pagas diariamente quando compramos o pão nosso de cada dia, em todos os produtos que compramos, todos os serviços que utilizamos. A meta da UC é se tornar uma universidade como a Oxford ou a Harvard, porám sabemos o quão elitistas são essas universidades, além do comprometimento científico que sofrem as linhas de pesquisas de instituições com modelo de gestão. Essa mesma reforma universitária foi proposta no Brasil mas foi rechaçada, e é um inimigo forte visto que aliena à empresas a Educação de um país. Felizmente nossa luta estudantil no Brasil evidentemente esta mais forte e avançada.

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