sábado, 21 de março de 2009

Novas impressões sobre Eurocentrismo, relativismo e Ciência

As coisas que os livros ensinam quando são experenciadas adquirem outro relevo. Dentro das leituras que vinha fazendo antes da mudança para Portugal estava a obstinação de uma parte dos pensadores "pós-modernos" em exacerbar um ultra-relativismo cultural a ponto de só vê na Ciência moderna uma forma de opressão e domínio sobre outras formas de pensamento não ocidentais. Assim, cada povo tem sua própria etno-ciência, que é válida e justificada por si mesma, uma vez que corresponde à cultura e às tradições do povo que formou certa etno-ciência.
Eu estava no ano passado bem dedicado a mapear as críticas marxistas contemporâneas a este tipo de raciocínio. Os autores que trabalhei, que relacionavam este tema com o "projeto" epistemólogico "pós-moderno", foram Terry Eagleton, Ciro Flamarion Cardoso, Ellen Wood, Meera Nanda e Aijaz Ahmad (estes dois último são indianos e, pretensamente, sofreram na sua formação o veneno tóxico de uma ciência européia e ocidental que objetiva dominar e eliminar os saberes orientais, segundo a tese "pós-moderna"...)
Pois bem, continuo convencido que o erro que une as teoria críticas ou as reacionárias do "pós-modernismo"consiste precisamente no unilateralismo que embasa a rejeição ao racionalismo moderno. Essa rejeição é justamente o ponto em que teorias críticas ( ou "esquerda pós-moderna") transformam-se em conservadoras, para não dizer reacionárias, abraçando-se com as teses abertamente reacionárias como Fukuyama ou Marc Augè. Contudo, passei a ver o caldo cultural em que foram germinadas as teorias ultra-relativistas, uma vez que o pensamento hegemônico na Europa é de um eurocentrismo que dá nos nervos! Quando falo em pensamento hegemônico me refiro à Academia, mas também ao senso comum. É impressionante quanto tantos professores parecem ter a absoluta certeza (embora muitas vezes escrevem em seus textos que verdade é um conceito obsoleto...) que só na Europa há Literatura, há Filosofia, há pensamento racional e laico...
O contato dos europeus com o Outro, na aurora da História Moderna, criou toda sorte de perspectivas face a este diferente. No entanto, hoje em dia, qual a fronteira entre o Europeu e o Outro aqui na Europa? Como pedir pra que o visitante seja gentil e educado quando o hóspede não o foi no passado? Os povos não europeus também possuem Memória e esta é trazida à tona em toda querela entre europeu e imigrante no cotidiano. Em uma palavra, os povos não europeus foram incluidos, à força, num mercado-mundo entre os séculos XVI e XVIII e, agora, fazem aquilo que foram obrigados a fazer: relacionarem-se com os europeus. A diferença é que agora este relacionamento dá-se na própria Europa, eis a tensa novidade que as migrações do pós-colonialismo trouxeram.
Diante disso, parte substancial do senso comum e da intelectualidade européia refugia-se no argumento da superioridade européia (incrível como para os professores do meu mestrado o conceito de Raça é válido e útil cientificamente, mesmo com todas as provas científicas de que as diferenças entre os seres humanos não são suficientes para que seja correto o uso do termo raça). Já ouvi muita coisa sobre isso em sala de aula, e isso de um país que vive de vinho e de subsídio da União Européia, imagine como será nos países centrais do capitalismo e com mais conflitos com imigrantes?
Na batalha de idéias é comum que para rebater uma idéia caia-se no extremo oposto: é o perigo de levar as críticas às últimas consequências. Assim, contra o eurocentrismo, ergue-se o relativismo absoluto, contra o racionalismo, fomenta-se o irracionalismo. Essas idéias super-relativistas são, contudo, minoria, se comparadas ao pensamento hegemônico que circula por aqui. Têm, portanto, um poder transgressor em relação a este pretenso gênio superior, Europa. Por isso, penso que passei a respeitar e compreender melhor estas teorias, mesmo que sem concordar com elas. Percebo, agora, porque estas teses ultra-relativistas emergiram principalmente com os estudos pós-coloniais e muitas vezes, não europeus. Entretanto, como diz Meera Nanda ("Contra a destruição/desconstrução da ciência: histórias cautelares do terceiro mundo in Foster, Jonh Bellamy et Wood, Ellen M.(org) Em defesa da história: marxismo e pós-modernism):
"um nacionalismo cultural que se volte contra o internacionalismo da ciênca é inteiramente destituído de qualque impulso progressista e, a despeito de toda a sua retórica populista, só pode mesmo manter o povo- em nome do qual alega falar- na servidão de opressões antiquíssimas, justificadas por supertições antigas"(p.87).
Lembrando que Nanda é indiana e seu texto é fruto de experiência com movimentos populares e com a cruel segregação social indiana, mantida sob base de justificativas religiosas e superticiosas.
Assim, o eurocentrismo dos europeus não pode nos tornar míopes e inconsequentes, a ciência que nasceu na Europa não é uma etno-ciência, é uma ciência com dimensão universal, que pode ser vital para processos de mudança social em espaços não-europeus, como mostra Meera Nanda.

3 comentários:

  1. É necessário acrescentar que a consequente exploracao de outros povos criou uma segregacao sangrenta no mundo. E continua a criar na medida em que, silenciosamente, individuos de varias outras ex-colonias, vem procurar aquilo que lhes foi tomado, e ainda assim, esses "ex-colonizadores" continuam a explora-los, e ironicamente, combater os imigrantes.

    ResponderExcluir
  2. Camarada Félix, como sempre, um texto seco, mas denso e profundo. Penso que neste teu diálogo/entendimento, seria interessante uma consulta stuart hall(Da diáspora, UFGM ou mesmo homi bhabha, o local da cultura também da UFMG, possam ajudar numa tentativa de compreensão do local pensando em articulações universais. Bem, aqui é apenas uma dica despretenciosa de quem se mete a ser um pouco antropólogo. Um abração.

    ResponderExcluir
  3. Excelente abordagem que você faz sobe o problema em foco. PEnso que Meera Nanda dá uma grande contribuição a essas questões. É necessário avançar mais nos estudos que ela propõe. Parabéns pelo blog.

    Cláudio Félix

    ResponderExcluir