sábado, 21 de março de 2009

Novas impressões sobre Eurocentrismo, relativismo e Ciência

As coisas que os livros ensinam quando são experenciadas adquirem outro relevo. Dentro das leituras que vinha fazendo antes da mudança para Portugal estava a obstinação de uma parte dos pensadores "pós-modernos" em exacerbar um ultra-relativismo cultural a ponto de só vê na Ciência moderna uma forma de opressão e domínio sobre outras formas de pensamento não ocidentais. Assim, cada povo tem sua própria etno-ciência, que é válida e justificada por si mesma, uma vez que corresponde à cultura e às tradições do povo que formou certa etno-ciência.
Eu estava no ano passado bem dedicado a mapear as críticas marxistas contemporâneas a este tipo de raciocínio. Os autores que trabalhei, que relacionavam este tema com o "projeto" epistemólogico "pós-moderno", foram Terry Eagleton, Ciro Flamarion Cardoso, Ellen Wood, Meera Nanda e Aijaz Ahmad (estes dois último são indianos e, pretensamente, sofreram na sua formação o veneno tóxico de uma ciência européia e ocidental que objetiva dominar e eliminar os saberes orientais, segundo a tese "pós-moderna"...)
Pois bem, continuo convencido que o erro que une as teoria críticas ou as reacionárias do "pós-modernismo"consiste precisamente no unilateralismo que embasa a rejeição ao racionalismo moderno. Essa rejeição é justamente o ponto em que teorias críticas ( ou "esquerda pós-moderna") transformam-se em conservadoras, para não dizer reacionárias, abraçando-se com as teses abertamente reacionárias como Fukuyama ou Marc Augè. Contudo, passei a ver o caldo cultural em que foram germinadas as teorias ultra-relativistas, uma vez que o pensamento hegemônico na Europa é de um eurocentrismo que dá nos nervos! Quando falo em pensamento hegemônico me refiro à Academia, mas também ao senso comum. É impressionante quanto tantos professores parecem ter a absoluta certeza (embora muitas vezes escrevem em seus textos que verdade é um conceito obsoleto...) que só na Europa há Literatura, há Filosofia, há pensamento racional e laico...
O contato dos europeus com o Outro, na aurora da História Moderna, criou toda sorte de perspectivas face a este diferente. No entanto, hoje em dia, qual a fronteira entre o Europeu e o Outro aqui na Europa? Como pedir pra que o visitante seja gentil e educado quando o hóspede não o foi no passado? Os povos não europeus também possuem Memória e esta é trazida à tona em toda querela entre europeu e imigrante no cotidiano. Em uma palavra, os povos não europeus foram incluidos, à força, num mercado-mundo entre os séculos XVI e XVIII e, agora, fazem aquilo que foram obrigados a fazer: relacionarem-se com os europeus. A diferença é que agora este relacionamento dá-se na própria Europa, eis a tensa novidade que as migrações do pós-colonialismo trouxeram.
Diante disso, parte substancial do senso comum e da intelectualidade européia refugia-se no argumento da superioridade européia (incrível como para os professores do meu mestrado o conceito de Raça é válido e útil cientificamente, mesmo com todas as provas científicas de que as diferenças entre os seres humanos não são suficientes para que seja correto o uso do termo raça). Já ouvi muita coisa sobre isso em sala de aula, e isso de um país que vive de vinho e de subsídio da União Européia, imagine como será nos países centrais do capitalismo e com mais conflitos com imigrantes?
Na batalha de idéias é comum que para rebater uma idéia caia-se no extremo oposto: é o perigo de levar as críticas às últimas consequências. Assim, contra o eurocentrismo, ergue-se o relativismo absoluto, contra o racionalismo, fomenta-se o irracionalismo. Essas idéias super-relativistas são, contudo, minoria, se comparadas ao pensamento hegemônico que circula por aqui. Têm, portanto, um poder transgressor em relação a este pretenso gênio superior, Europa. Por isso, penso que passei a respeitar e compreender melhor estas teorias, mesmo que sem concordar com elas. Percebo, agora, porque estas teses ultra-relativistas emergiram principalmente com os estudos pós-coloniais e muitas vezes, não europeus. Entretanto, como diz Meera Nanda ("Contra a destruição/desconstrução da ciência: histórias cautelares do terceiro mundo in Foster, Jonh Bellamy et Wood, Ellen M.(org) Em defesa da história: marxismo e pós-modernism):
"um nacionalismo cultural que se volte contra o internacionalismo da ciênca é inteiramente destituído de qualque impulso progressista e, a despeito de toda a sua retórica populista, só pode mesmo manter o povo- em nome do qual alega falar- na servidão de opressões antiquíssimas, justificadas por supertições antigas"(p.87).
Lembrando que Nanda é indiana e seu texto é fruto de experiência com movimentos populares e com a cruel segregação social indiana, mantida sob base de justificativas religiosas e superticiosas.
Assim, o eurocentrismo dos europeus não pode nos tornar míopes e inconsequentes, a ciência que nasceu na Europa não é uma etno-ciência, é uma ciência com dimensão universal, que pode ser vital para processos de mudança social em espaços não-europeus, como mostra Meera Nanda.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Universidade: mediocridade se faz assim, por Unanimidade!





É difícil, para um brasileiro criado na Universidade Federal Pública, entender o que os portugueses, como também os europeus de forma geral, entendem por Universidade. Aqui se paga mensalidade para estudar, tal qual nas Universidades privadas do Brasil. Universidade como um serviço pago - não só pelo Estado mas, covardemente, pelo estudante- não deixa de ser curioso para os padrões de dinheiro que orbitam nas empresas e nos Estados aqui na Europa. Se lembrarmos que em países como Alemanha, França, Suécia...ainda há medidas públicas como seguro-desemprego, auxílio-moradia... que transferem dinheiro do Estado para o "contribuinte", observamos como é intrigante que para esses auxílios individualizados (aos europeus) o Estado tenha muita verba, mas para fomentar uma Universidade Pública e gratuita para todos, inclusive para os não-europeus, já não há dinheiro.

Intrigante é, também, a postura dos brasileiros encantados com a riqueza e o padrão de vida da Europa, que rasgam elogios às ajudas assistencialistas direcionadas aos próprios europeus, mas nada falam das Universidades/Empresas daqui.

É só conhecer alguns trabalhadores portugueses daqui de Coimbra pra perceber que o salário médio do comércio daqui - 450 euros- não dá pra pagar uma mensalidade de 300 euros da Universidade. Parte significativa das famílias de Coimbra não tem como sustentar seus filhos na Universidade. Resultado num país que tem boa parte de sua renda vinda do setor de serviços: lá se vão os jovens lusitanos trabalhar no comércio (disputando os empregos com os imigrantes).

Os acontecimentos de outubro para cá no que diz respeito a uma concepção de Universidade tem sido um verdadeiro pacto de mediocridade. Como parte de uma tendência ampla de reformas da Univerdidade propostas pela União Européia, foi criado um Conselho Geral para deliberar os assuntos decisivos sobre a Universidade (nomear Reitor, alterar o Estatuto da Universidade, criar ou destituir orgãos da Universidade, fixar o valor das mensalidades...) formado por, atenção, 18 professores, 5 estudantes, 2 funcionários e 10 "personalidades" externas à Universidade!! Onde tem personalidades externas leia-se empresários e políticos de direita, ou o leitor pensa que vão chamar o porteiro aqui do prédio? Mais abaixo coloquei o link dos 10 que foram aprovados. Curioso é que na primeira reunião deste Conselho foi definido o presidente do Conselho e, interessante, é uma dessas "personalidades de destaque": trata-se de um mega-banqueiro daqui de Portugal, que foi fundador do Banco BPI, além de várias outras proezas na sua vida "dedicada ao conhecimento universitário". Só a título de exemplo, uma das primeiras frases de Artur Santos Silva, banqueiro mor e "cérebro" da Universidade de Coimbra: «estas mudanças contribuam para transformar em ainda mais valor económico toda a grande capacidade de produção de conhecimento que existe nas universidades». Recordo que a eleição de tão ilustre presidente foi decidida por Unanimidade dentro do Conselho! Lembro também que um dos membros deste conselho é Boaventura de Sousa Santos (já tão divulgado neste blog), que lançou chapa (por isso foi eleito para o Conselho como professor) onde defendia, na totalidade, estas reformas da Universidade.

Lembram as Assembléias de Professores? Algo parecido tem aqui com o que é chamado de Senado da Universidade. Mas, tem agora apenas caráter consultivo, porque apenas o Coselho Geral possui poder deliberativo. E aí, o que vocês acham, será que a proprina (mensalidade) vai aumentar?

Mas o aumento das propinas é coisa pequena, vem propostas mais substanciais. Tá sendo discutida aqui a possibilidade da Universidade de Coimbra tornar-se uma Fundação Privada, seguindo os passos de outras Universidades européias. Bom, com o Conselho Geral tão engajado nessas "mudanças", com um presidente tão atento aos saberes acadêmicos e a democratização dos mesmos, penso que a Universidade de Coimbra pode, como quer nosso banqueiro-acadêmico, torna-se uma Universidade cada vez mais européia e, acrescentaria eu, cada vez mais cara e elitista, aos moldes das Universidades inglesas.

Links: Atribuições do Conselho Geral: http://www.uc.pt/senado/orgaos_governo/
Currículo do Presidente e relação dos membros do Conselho: http://www.uc.pt/administracao/comuniqando/em_foco/presidente_cguc/

Aprovação por Unanimidade do presidente do Conselho: http://www.acabra.net/artigo.php?id_artigo=4064

Por último, mas não menos importante, deixar notório que houve estudantes contra estas medidas, mas que não tiveram como vencê-las.

Filmes: Admiral (Almirante). Russia, 2008




Sugestão de Filme


Admiral (Almirante). Russia, 2008.


Sinopse de divulgação: Admiral Kolchak é um verdadeiro herói de guerra e também um pai de família. Um dia ele conhece Anna, o amor de sua vida que se torna sua esposa e também sua melhor amiga. A revolução em seu coração enfrenta a revolução em seu próprio país... Seu destino se tornou o Supremacia da Rússia.......


Comentário sobre o filme: este filme é ambientado nos tumultuados anos de 1916 à 1920, através da história de Aleksandr Vasiliyevich Kolchak, almirante muito destacado em combates, que tornou-se um dos líderes do exército branco (anti-revolucionário), durante a "guerra civil" russa (1917 à 1923).
Como referencial histórico, penso que o filme revela, de certa forma, o estado de coisas da época. As tensões que envolveram a queda do czarismo, o espanto gerado com a instauração de um governo próvisório e depois as reações extremadas que vieram com a tomada do Poder pelos Bolcheviques: destaque para as cenas de entrega das armas dos oficiais para os marinheiros depois da ordem do governo soviético de desarmar os oficiais da guerra.
O caso de amor de Kolchak com Anna Vasilievna ocupa o centro da história (sempre tem que haver um romance desses pra tornar mais pop o filme...)
Por fim, talvez seja sintomático que em 2008 o cinema russo resgate a memória dos contra-revolucionários, isso deve nos fazer pensar...Aliás, um estudo formidável seria ver justamente essas disputas em torno da memória histórica da revolução socialistas na Rússia de hoje.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Alguns Comentários à Palestra de Boaventura -16/01-

Vou fazer breves comentários (referentes ao texto Síntese da Palestra de Boaventura publicado aqui neste blog...), que me vieram no momento da palestra. Portanto são apontamentos bem limitados. Pretendo, depois de mais estudos, desenvolver, explicar, corrigir o que escrevi, em textos futuros.

Primeiro, as duas coisas mais curiosas da palestra, a primeira foi o seu bem-humorado início, onde Boaventura disse que não sabia se era marxista ou pós-marxista, já que ele se considera marxista, mas seus críticos o chamam de pós-marxista. A segunda foi o fato de Marx ter sido poupado de quase todas as críticas. Isso é estranho, mas talvez seja pelo intuito do seminário que é valorizar Marx para os debates de hoje.

Segundo, foi interessante notar que o Boaventura trabalhou com uma divisão dentro do autores pós-modernos. Por um lado, uma espécie de "esquerda pós-moderna", que seriam as várias revisões do marxismo de 30 anos pra cá ( Laclau/Mouffe, marxismo analítico, Boaventura, entre outros), por outro lado, uma "direita pós-moderna" que critica o marxismo e a modernidade no intuito de legitimar o capitalismo e proclamar um presente eterno ou uma imutabilidade do capitalismo ( ex: Fukuyama e seu fim da história). Além disso, foi importante perceber algumas nuances dentro da "esquerda pós-moderna" ou pós-marxismo, como foi o caso das duas críticas dirigidas a Ernesto Laclau e da reprovação daqueles pós-marxistas que abandonam completamente o conceito de classes sociais. Foi bom perceber isto na palestra porque confirma algumas hipóteses que eu vinha pensando sobre este mapeamento dos "pós-modernos". Volto a isto no final destes comentários.

De momento, é oportuno comentar de maneira muito breve os seis pontos que devem ser superados dentro da tradição marxista, segundo Boaventura. Logo em seguida, farei algumas reflexões sobre o conjunto da crítica de Boaventura e lançarei algumas hipóteses sobre o referencial teórico-metodológico que move esta reavaliação do marxismo enquanto instrumental para orientar as lutas sociais contemporâneas.

1) Crítica ao triângulo marxista (materialismo histórico, filosofia dialética e Partido).
4) Crítica ao vanguardismo (vanguarda) do Partido

Posso estar falando uma heresia mas, para mim, os dois primeiros elementos são mais fundamentais para o marxismo do que a forma-Partido. O materialismo histórico é a maior articulação racional já feita para entender o desenvolvimento histórico e as mudanças sociais. Não tenho como defender isto neste texto. Gostaria de falar, antes, que concordo que o marxismo da II e III Internacionais, de forma geral, supervalorizaram as "leis" e as "necessidades históricas". Isso é patente em Plekanov, Lênin e, por vezes, em Rosa Luxemburgo. Em Lênin, por exemplo, é difícil saber até que ponto ele acreditava, epistemologicamente, numa necessidade histórica que conduziria a humanidade ao socialismo, ou se se travata, antes, de uma frase de efeito ou de uma frase de caráter político para estimular os militantes (ambos eram corriqueiros no marxismo da época). Quanto à filosofia dialética, concordo com a crítica no que diz respeito aos esquematismos que vingaram. No fundo, a teorização de Engels na "Dialética da Natureza" comporta algumas generalizações mal fundamentadas, além de um visível mal-estar em delinear com precisão as fronteiras e especificidades do mundo natural e do mundo social. Isso agrava-se no marxismo stalinista, com todos aqueles manuais ultra-simplistas do materialismo histórico e da filosofia dialética.

Estou convencido de que o materialismo histórico (que é intrinsicamente dialético) em seu conjunto é não só válido, mas indispensável para entender os nossos dias. Tanto quanto instrumental de análise do presente, como instrumental de análise das sociedades passadas, o materialismo histórico ainda é insubstituível. Assim, conceitos como modo de produção, relações de produção, classes sociais, totalidade que articula no âmbito da pesquisa, os níveis da realidade (político, económico, cultural, ideólogico…), níveis estes que, por sua vez, não influem da mesma maneira e nem com a mesma intensidade na configuração de uma certa sociedade, são todos, sem exceção, extremamente úteis na pesquisa histórica e na compreensão da realidade de hoje. Sei que esta minha argumentação é justamente o que precisa ser provado, tentarei isto em outros textos, com mais estudo e de forma mais apropriada.

O Partido que conhecemos e que é alvo de tantas críticas é o modelo do Partido Bolchevique e a influência leninista e, depois stalinista, sobre os diversos partidos comunistas espalhados no mundo. É uma organização política que foi forjada sob os preceitos das análises marxistas, porém levanto a hipótese de que não há nada que impeça o marxismo –enquanto referencial histórico e filosófico- de servir de referência para a criação de outras formas de organização política.

Uma das teses centrais que sustenta o Partido enquanto vanguarda da classe proletária está centrada na experiência da luta política e nos estudos feitos sobre a noção de consciência social. Teorizações estas que incluem Lênin, Lukács, Lucien Goldmann, entre outros. A tese aqui é clara: a tomada de consciência da sua realidade de exploração, por parte dos trabalhadores, não acontece de forma linear e não se dá de forma igual para o conjunto da classe. Uma parte desta classe, na luta política, toma consciência da exploração de forma mais nítida que outra parte. Esta parte mais consciente pode, então, contribuir estimulando e organizando a luta da classe como um todo, formando militantes que dêem conta dos desafios históricos colocado para os explorados. Sendo assim, os pós-leninistas precisam responder como, por que meio e circunstância, poderemos dar conta do fenômeno da consciência social e fazer uma revolução com um partido-retaguarda, como fala o Boaventura. Qual a concepção de consciência social (e de ideologia) que está por trás de uma idéia de partido-retaguarda?

Outra coisa, o Partido tipo leninista não é ontologicamente autoritário, anti-democrático, impositivo, alheio à classe trabalhadora, como parecem sugerir alguns pós-leninistas. Há o risco que essa degeneração aconteça, aliás o século XX mostrou exemplos que enchem centenas de páginas. Todavia, é possível olhar para experiências partidárias que não caíram nesta degeneração, especialmente quando mantiveram-se no interior da classe, dando relativa autonomia para as organizações populares. Penso que o Partido (ou os Partidos), enquanto organização (ou organizações) da classe trabalhadora, tem muitos desafios pela frente, como a incorporação de novos agentes políticos subalternizados (e a correspondende incorporação de novas pautas). O Partido tem, ademais, tarefas semelhantes ao marxismo, que é não repetir erros passados e aprender com as variações da realidade de hoje e o contributo de teorias críticas. O Partido, de uma vez por todas, não é a Verdade, o Partido não esgota a classe.

2) O marxismo menosprezou as subjetividades políticas, ao dar atenção exclusiva ao proletáriado.

Concordo basicamente com as críticas feitas por Boaventura. Discordo, no entanto, quanto ao entendimento sobre as classes sociais. Por mais que existam outras formas geradoras de identidade social e outras formas de opressão que não sejam econômicas, a clivagem da sociedade em classes ainda é o que mais configura as relações sociais no mundo capitalista. Ademais, as classes estão vinculadas umbilicalmente com a relação de poder principal da sociedade, que é a relação capital-trabalho. Concordo com Boaventura quando este diz que existem outras relações de poder na sociedade, como o poder no espaço familiar, ou o poder no espaço global. Entretanto, pra mim o marxismo acerta ao identificar na relação de poder do capital sobre o trabalho (e na decorrência disso que é a divisão da sociedade em classes sociais de uma forma específica) aquilo que mais configura a sociedade. Reconheço, no entanto, que essas outras relações de poder e de micro-poderes têm tido pouca atenção dos marxistas, pelo que tende a ser diferente diante das reinvidicações de um conjunto de oprimidos mais vastos e mais multifacetados do que o proletariado clássico.

3) Houve uma miopia ou um deficit ético no marxismo (ética eurocêntrica)
6) O marxismo desvalorizou a democracia.


Boaventura não desenvolveu estas teses, nem bem sei o que ele quis dizer. Talvez as afirmações se refiram ao stalinismo, onde a democracia e a ética sofreram um bocado. Se, contudo, a palavra democracia aqui estiver num sentido mais amplo e, portanto, menos burguês, a tese é preocupante, haja vista que boa parte das conquistas da classe trabalhadora dentro da democracia burguesa, como direitos trabalhistas, liberdade de expressão, liberdade de formação de sindicatos e organizações foram todos realizadas graças à URSS de 1917 e às lutas sociais, boa parte delas orientadas segundo o marxismo. Agora, se a frase quer dizer que o marxismo desvalorizou a democracia burguesa, aí já não sei. Quando lembro dos partidos comunistas europeus reduzindo-se a comitês de campanhas eleitorais para as democracias burguesas, penso que é infelizmente o contrário.

5) Crítica à idéia positivista do marxismo entendido como uma ciência. Para Boaventura, o marxismo não é uma ciência.

Aqui também faltaram mais explicações do palestrante. A crítica dirige-se, talvez, ao marxismo-positivista-stalinista que defendia que o marxismo era a Ciência por excelência, porque correspondia à Verdade que vinha apenas da classe proletária e de seu Partido. Conclusão óbvia: a classe e, especialmente, o Partido tem sempre a razão, porque estão com a Verdade, enquanto que todas as manifestações científicas ou artísticas da burguesia são falsas consciências e devem ser evitadas, expurgadas, queimadas…Esta idéia do marxismo ainda é muito forte nos movimentos sociais e nos partidos de esquerda, pelo que penso que devemos expurgar de vez essa herança de um certo marxismo da II e III Internacionais e do stalinismo. Convido, por outro lado, à leitura de Lukács em “História e Consciência de classe”, onde é explicado com muito mais complexidade a relação entre a classe proletária e a Verdade. Para Lukács, não há uma relação necessária entre as duas coisas, embora a classe proletária pode (ou seja, tem o potencial para tal, embora nem sempre use esse potencial) produzir um conhecimento mais verdadeiro por conta de sua necessidade de revelar o real para se emancipar, enquanto a burguesia sente necessidade de esconder a natureza das relações sociais para se proteger enquanto classe.
Apesar de, em larga medida, usar com grande êxito as ferramentas científicas, o marxismo não é uma ciência à parte. O marxismo faz parte, antes, do pensamento científico.

CONCLUSÃO

Sugiro agora alguns questionamentos e afirmações que correspondem ainda a uma fase prematura de estudo e debate. Contudo, já dizia Hegel que quem tem medo de errar tem medo da própria verdade. Sendo assim, vamos arriscar.
A revisão do marxismo na palestra de Boaventura padece dos mesmos defeitos de outras revisões pós-marxistas: uma visão demasiado seletiva do marxismo, embora não necessariamente errônea, que escolhe alguns marxistas em vez de outros (e ainda elege certos aspectos em detrimento de outros sobre o mesmo autor) e, o que é tão grave quanto, praticamente não faz referência para o marxismo produzido do final da década de 70 para cá, que tem criticado e corrigido aspectos problemáticos da teoria marxista, inclusive lidando com fenômenos sociais contemporâneos e explicando-os à luz do materialismo histórico, o pretenso cadáver!
O que dizer de uma palestra que critica os determinismos e as leis da história dentro do marxismo sem fazer nenhuma referência ao livro publicado em 1978 e intitulado “The Poverty of Theory" ("Miséria da Teoria”) de Edward Thompson? Neste livro, Thompson critica o marxismo stalinista e o marxismo estruturalista de Althusser (por vezes até de forma exagerada) fazendo várias retificações para futuros estudos marxistas. O que dizer de uma palestra que utiliza o mesmo metódo pós-marxista de falar do marxismo (ou do que eles acham que é o marxismo): criticam uma parte dele, geralmente ligada ao stalinismo, para em seguida, despudoradamente, generalizarem as críticas para todo o marxismo, dando por explicado o que precisa ser provado?

Acho que chegou o momento de tentar ajudar na dúvida que teve o Boaventura se ele é marxista ou pós-marxista. Não é difícil distinguir uma coisa da outra. Ora, basta reler os pontos que devem ser superados do marxismo segundo Boaventura, isso já é a resposta, trata-se de um pós-marxismo! Essas coisas são como “pegar” a mulher do amigo, mandar ele pra aquele lugar e depois querer ser amigo do cara, não dá! É um pós-marxismo também porque as críticas e as sugestões (ou aquilo que se coloca no lugar do que foi descartado) não são apenas anti-marxistas, mas anti-iluministas. O livro de Boaventura “Por uma ciência Pós-Moderna” é assumidamente anti-iluminista, e isso quer dizer descartar aspectos positivos do Iluminismo. Eu iria mais longe, isso é jogar fora potenciais revolucionários do Iluminismo. A ciência moderna, para além de vários problemas que trouxe para a humanidade, trouxe algo absolutamente fulcral para um processo revolucionário: a própria possibilidade epistemológica de revelar a exploração que sofre parte da humanidade. Este revelar dá-se com critérios delimitados e com possibilidades de verdades, ainda que estas sejam relativas às épocas históricas que as construíram. Mas essas verdades podem tornar-se dinamites que implodem as ideologias reacionárias, dando passos à frente na luta.
Por último, só como exemplo do que pode acontecer com análises de conjuntura que dispensam o materialismo histórico, vai o link de um pequeno texto do Boaventura sobre a vitória de Obama. Em vez de classes, sentimentos de que tudo vá ficar bem; em vez de relações de imperialismo, sentimentos pós-nacionalistas; em vez de articular indíviduo e classe social, romantiza o indíviduo; em vez de revelar, mistifica. Em vez de ciência moderna, senso-comum pós-moderno...
Abraços fraternos

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Síntese da Palestra de Boaventura de Sousa Santos na Universidade de Coimbra - 16/01


Nas vésperas do Fórum Social Mundial fui assistir hoje (16-01-09) uma palestra de um d0s seus organizadores, Boaventura de Sousa Santos, na Universidade de Coimbra. A palestra, que teve como título "Para uma concepção pós-abissal do Marxismo", faz parte de um seminário chamado "Pela mão de Marx: Mercado, Estado e Sociedade Civil no Século XXI".
Listarei as principais teses defendidas por Boaventura na palestra, tentando ser o mais fiel possível à palestra proferida, para, na próxima postagem, fazer alguns comentários.

Partindo do pressuposto de que a emancipação social em direção a um sociedade pós-capitalista é tarefa urgente dos agentes políticos subalternizados de várias regiões do globo, especialmente do hemisfério sul, Boaventura conclama a necessidade de se proceder a uma avaliação do referencial teórico utilizado para compreender e transformar a realidade durante o século XX, ou seja, o marxismo. Isto porque, segundo Boaventura, o marxismo é uma teoria cujo nascedouro respondeu a uma realidade européia do século XIX. Essa avaliação do marxismo, para ele, visa adequarmos este referencial à realidade contemporânea das várias regiões do globo, que comportam vários tipos de lutas e de organizações populares.

Visto isso, o sociólogo português faz duas distinções que irão nortear toda a sua fala. Ele divide a crítica recente ao marxismo (outros autores chamariam de pós-marxismo-fala de Boaventura-) em duas fases: a primeira, seria marcada por uma crítica demasiada cética e negativa, enquanto que a segunda fase seria mais propositiva, na busca de alternativas ao capitalismo mediante experimentalismos de formas de lutas sociais de vários tipos. Boaventura situa-se na segunda fase, citando como exemplo da fase anterior Ernesto Laclau. A segunda distinção diz respeito mais diretamente ao objeto da palestra, uma crítica ao marxismo por dentro do marxismo, como ele diz. Essa crítica, então, incidirá sobretudo no marxismo da II e III Internacionais. Marx foi poupado de praticamente todas as críticas no decorrer da palestra. Aliás, Marx foi citado, mais especificamente textos inéditos do pensador alemão que estão na Universidade de Amsterdam, como fonte para soluções de erros e reducionismos da II e III Internacionais.

Eis as críticas ao marxismo da II e III Internacionais. Aliás, para ser mais fiel à palestra, é importante frisar que as críticas abaixo são postulados do marximo que se mostraram insustentáveis e, portanto, devem ser superados, segundo Boaventura.

1) O triângulo marxista deve ser superado. Triângulo este formado por uma concepção de história baseada em leis (materialismo histórico), por uma filosofia baseada na dialética (materialismo dialético) e por uma organização política (Partido) que, utilizando os outros dois elementos, interpretaria a luta de classes e conduziria o proletariado na direção do socialismo. No que diz respeito à crítica a concepção de história, Boaventura afirma que não cai no outro extremo, que é pensar que a realidade é absolutamente contigente, como faz, segundo ele, Ernesto Laclau que, a partir de Lacan, entende a revolução\socialismo como um significante vazio. Boaventura diz que há uma contigência relativa nas ações sociais, que é limitada por processos de estruturação que ocorrem no meio social.

2) O marxismo menosprezou as subjetividades políticas, ao dar atenção exclusiva ao proletáriado. O erro aqui, segundo Boaventura, é que a derivação da dimensão política da economia coloca o proletariado como o sujeito político isolado, não dando atenção para outros sujeitos e subjetividades se mostrarem na luta política. O surgimento das reinvidicações das mulheres e dos movimentos sociais advindos dos países recém descolonizados exigem uma amplitude maior para os agentes políticos do que a classe social. Contudo, Boaventura critica outros pós-marxismos que descartam o conceito de classe social. Para Boaventura, classe é um aspecto em que se revela as relações de opressão. No entanto, outras relações de opressão são mediadas por etnicidade, por exemplo, que não é classe social.

3) Houve uma miopia ou um deficit ético na marxismo (ética eurocêntrica)

4) Crítica ao vanguardismo (vanguarda) do Partido. Segundo Boaventura, o Partido não deve ser a vanguarda, mas a retaguarda dos sujeitos políticos subalternizados: estimulando a luta, sugerindo questões...

5) Crítica à idéia positivista do marxismo entendido como uma ciência. Para Boaventura, o marxismo não é uma ciência.

6) O marxismo desvalorizou a democracia.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

À guisa de boas vindas

A internet pode ser o reino das imagens, como espécie de apoteose de nossa sociedade imagética. Mas, prefiro vê-la como o lugar das palavras. Basta lembrar do glorioso Mirc (chat de bate-papo) onde a comunicação tinha lugar inteiramente mediante as palavras. Lá, no mirc, as palavras podiam mais, podiam aproximar dois completos desconhecidos numa simbiose tamanha que não se sabia mais a quem pertencia às palavras. Na internet, o estranho é tão próximo, que nos causa estranheza. E desse estranho apenas conhecemos suas palavras, nada mais. Isso não é pouco, nem insuficiente, é tudo o que precisamos para contar cada ruela dos nossos sentimentos. E fazemos isso ao saber que esse estranho está tão distante que nunca irá percorrer as ruelas, embora saiba todo o caminho.

Contatos íntimos-ausentes, profundos-superficiais, é o que nos oferece a internet. Este blog não pretende ser diferente.

Este Blog versará sobre marxismo e teorias críticas da sociedade contemporânea, antiguidade clássica e, ainda, sobre a conjuntura e os costumes lusitanos e europeus.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009