Vou fazer breves comentários (referentes ao texto Síntese da Palestra de Boaventura publicado aqui neste blog...), que me vieram no momento da palestra. Portanto são apontamentos bem limitados. Pretendo, depois de mais estudos, desenvolver, explicar, corrigir o que escrevi, em textos futuros.
Primeiro, as duas coisas mais curiosas da palestra, a primeira foi o seu bem-humorado início, onde Boaventura disse que não sabia se era marxista ou pós-marxista, já que ele se considera marxista, mas seus críticos o chamam de pós-marxista. A segunda foi o fato de Marx ter sido poupado de quase todas as críticas. Isso é estranho, mas talvez seja pelo intuito do seminário que é valorizar Marx para os debates de hoje.
Segundo, foi interessante notar que o Boaventura trabalhou com uma divisão dentro do autores pós-modernos. Por um lado, uma espécie de "esquerda pós-moderna", que seriam as várias revisões do marxismo de 30 anos pra cá ( Laclau/Mouffe, marxismo analítico, Boaventura, entre outros), por outro lado, uma "direita pós-moderna" que critica o marxismo e a modernidade no intuito de legitimar o capitalismo e proclamar um presente eterno ou uma imutabilidade do capitalismo ( ex: Fukuyama e seu fim da história). Além disso, foi importante perceber algumas nuances dentro da "esquerda pós-moderna" ou pós-marxismo, como foi o caso das duas críticas dirigidas a Ernesto Laclau e da reprovação daqueles pós-marxistas que abandonam completamente o conceito de classes sociais. Foi bom perceber isto na palestra porque confirma algumas hipóteses que eu vinha pensando sobre este mapeamento dos "pós-modernos". Volto a isto no final destes comentários.
De momento, é oportuno comentar de maneira muito breve os seis pontos que devem ser superados dentro da tradição marxista, segundo Boaventura. Logo em seguida, farei algumas reflexões sobre o conjunto da crítica de Boaventura e lançarei algumas hipóteses sobre o referencial teórico-metodológico que move esta reavaliação do marxismo enquanto instrumental para orientar as lutas sociais contemporâneas.
1) Crítica ao triângulo marxista (materialismo histórico, filosofia dialética e Partido).
4) Crítica ao vanguardismo (vanguarda) do Partido
Posso estar falando uma heresia mas, para mim, os dois primeiros elementos são mais fundamentais para o marxismo do que a forma-Partido. O materialismo histórico é a maior articulação racional já feita para entender o desenvolvimento histórico e as mudanças sociais. Não tenho como defender isto neste texto. Gostaria de falar, antes, que concordo que o marxismo da II e III Internacionais, de forma geral, supervalorizaram as "leis" e as "necessidades históricas". Isso é patente em Plekanov, Lênin e, por vezes, em Rosa Luxemburgo. Em Lênin, por exemplo, é difícil saber até que ponto ele acreditava, epistemologicamente, numa necessidade histórica que conduziria a humanidade ao socialismo, ou se se travata, antes, de uma frase de efeito ou de uma frase de caráter político para estimular os militantes (ambos eram corriqueiros no marxismo da época). Quanto à filosofia dialética, concordo com a crítica no que diz respeito aos esquematismos que vingaram. No fundo, a teorização de Engels na "Dialética da Natureza" comporta algumas generalizações mal fundamentadas, além de um visível mal-estar em delinear com precisão as fronteiras e especificidades do mundo natural e do mundo social. Isso agrava-se no marxismo stalinista, com todos aqueles manuais ultra-simplistas do materialismo histórico e da filosofia dialética.
Estou convencido de que o materialismo histórico (que é intrinsicamente dialético) em seu conjunto é não só válido, mas indispensável para entender os nossos dias. Tanto quanto instrumental de análise do presente, como instrumental de análise das sociedades passadas, o materialismo histórico ainda é insubstituível. Assim, conceitos como modo de produção, relações de produção, classes sociais, totalidade que articula no âmbito da pesquisa, os níveis da realidade (político, económico, cultural, ideólogico…), níveis estes que, por sua vez, não influem da mesma maneira e nem com a mesma intensidade na configuração de uma certa sociedade, são todos, sem exceção, extremamente úteis na pesquisa histórica e na compreensão da realidade de hoje. Sei que esta minha argumentação é justamente o que precisa ser provado, tentarei isto em outros textos, com mais estudo e de forma mais apropriada.
O Partido que conhecemos e que é alvo de tantas críticas é o modelo do Partido Bolchevique e a influência leninista e, depois stalinista, sobre os diversos partidos comunistas espalhados no mundo. É uma organização política que foi forjada sob os preceitos das análises marxistas, porém levanto a hipótese de que não há nada que impeça o marxismo –enquanto referencial histórico e filosófico- de servir de referência para a criação de outras formas de organização política.
Uma das teses centrais que sustenta o Partido enquanto vanguarda da classe proletária está centrada na experiência da luta política e nos estudos feitos sobre a noção de consciência social. Teorizações estas que incluem Lênin, Lukács, Lucien Goldmann, entre outros. A tese aqui é clara: a tomada de consciência da sua realidade de exploração, por parte dos trabalhadores, não acontece de forma linear e não se dá de forma igual para o conjunto da classe. Uma parte desta classe, na luta política, toma consciência da exploração de forma mais nítida que outra parte. Esta parte mais consciente pode, então, contribuir estimulando e organizando a luta da classe como um todo, formando militantes que dêem conta dos desafios históricos colocado para os explorados. Sendo assim, os pós-leninistas precisam responder como, por que meio e circunstância, poderemos dar conta do fenômeno da consciência social e fazer uma revolução com um partido-retaguarda, como fala o Boaventura. Qual a concepção de consciência social (e de ideologia) que está por trás de uma idéia de partido-retaguarda?
Outra coisa, o Partido tipo leninista não é ontologicamente autoritário, anti-democrático, impositivo, alheio à classe trabalhadora, como parecem sugerir alguns pós-leninistas. Há o risco que essa degeneração aconteça, aliás o século XX mostrou exemplos que enchem centenas de páginas. Todavia, é possível olhar para experiências partidárias que não caíram nesta degeneração, especialmente quando mantiveram-se no interior da classe, dando relativa autonomia para as organizações populares. Penso que o Partido (ou os Partidos), enquanto organização (ou organizações) da classe trabalhadora, tem muitos desafios pela frente, como a incorporação de novos agentes políticos subalternizados (e a correspondende incorporação de novas pautas). O Partido tem, ademais, tarefas semelhantes ao marxismo, que é não repetir erros passados e aprender com as variações da realidade de hoje e o contributo de teorias críticas. O Partido, de uma vez por todas, não é a Verdade, o Partido não esgota a classe.
2) O marxismo menosprezou as subjetividades políticas, ao dar atenção exclusiva ao proletáriado.
Concordo basicamente com as críticas feitas por Boaventura. Discordo, no entanto, quanto ao entendimento sobre as classes sociais. Por mais que existam outras formas geradoras de identidade social e outras formas de opressão que não sejam econômicas, a clivagem da sociedade em classes ainda é o que mais configura as relações sociais no mundo capitalista. Ademais, as classes estão vinculadas umbilicalmente com a relação de poder principal da sociedade, que é a relação capital-trabalho. Concordo com Boaventura quando este diz que existem outras relações de poder na sociedade, como o poder no espaço familiar, ou o poder no espaço global. Entretanto, pra mim o marxismo acerta ao identificar na relação de poder do capital sobre o trabalho (e na decorrência disso que é a divisão da sociedade em classes sociais de uma forma específica) aquilo que mais configura a sociedade. Reconheço, no entanto, que essas outras relações de poder e de micro-poderes têm tido pouca atenção dos marxistas, pelo que tende a ser diferente diante das reinvidicações de um conjunto de oprimidos mais vastos e mais multifacetados do que o proletariado clássico.
3) Houve uma miopia ou um deficit ético no marxismo (ética eurocêntrica)
6) O marxismo desvalorizou a democracia.
Boaventura não desenvolveu estas teses, nem bem sei o que ele quis dizer. Talvez as afirmações se refiram ao stalinismo, onde a democracia e a ética sofreram um bocado. Se, contudo, a palavra democracia aqui estiver num sentido mais amplo e, portanto, menos burguês, a tese é preocupante, haja vista que boa parte das conquistas da classe trabalhadora dentro da democracia burguesa, como direitos trabalhistas, liberdade de expressão, liberdade de formação de sindicatos e organizações foram todos realizadas graças à URSS de 1917 e às lutas sociais, boa parte delas orientadas segundo o marxismo. Agora, se a frase quer dizer que o marxismo desvalorizou a democracia burguesa, aí já não sei. Quando lembro dos partidos comunistas europeus reduzindo-se a comitês de campanhas eleitorais para as democracias burguesas, penso que é infelizmente o contrário.
5) Crítica à idéia positivista do marxismo entendido como uma ciência. Para Boaventura, o marxismo não é uma ciência.
Aqui também faltaram mais explicações do palestrante. A crítica dirige-se, talvez, ao marxismo-positivista-stalinista que defendia que o marxismo era a Ciência por excelência, porque correspondia à Verdade que vinha apenas da classe proletária e de seu Partido. Conclusão óbvia: a classe e, especialmente, o Partido tem sempre a razão, porque estão com a Verdade, enquanto que todas as manifestações científicas ou artísticas da burguesia são falsas consciências e devem ser evitadas, expurgadas, queimadas…Esta idéia do marxismo ainda é muito forte nos movimentos sociais e nos partidos de esquerda, pelo que penso que devemos expurgar de vez essa herança de um certo marxismo da II e III Internacionais e do stalinismo. Convido, por outro lado, à leitura de Lukács em “História e Consciência de classe”, onde é explicado com muito mais complexidade a relação entre a classe proletária e a Verdade. Para Lukács, não há uma relação necessária entre as duas coisas, embora a classe proletária pode (ou seja, tem o potencial para tal, embora nem sempre use esse potencial) produzir um conhecimento mais verdadeiro por conta de sua necessidade de revelar o real para se emancipar, enquanto a burguesia sente necessidade de esconder a natureza das relações sociais para se proteger enquanto classe.
Apesar de, em larga medida, usar com grande êxito as ferramentas científicas, o marxismo não é uma ciência à parte. O marxismo faz parte, antes, do pensamento científico.
CONCLUSÃO
Sugiro agora alguns questionamentos e afirmações que correspondem ainda a uma fase prematura de estudo e debate. Contudo, já dizia Hegel que quem tem medo de errar tem medo da própria verdade. Sendo assim, vamos arriscar.
A revisão do marxismo na palestra de Boaventura padece dos mesmos defeitos de outras revisões pós-marxistas: uma visão demasiado seletiva do marxismo, embora não necessariamente errônea, que escolhe alguns marxistas em vez de outros (e ainda elege certos aspectos em detrimento de outros sobre o mesmo autor) e, o que é tão grave quanto, praticamente não faz referência para o marxismo produzido do final da década de 70 para cá, que tem criticado e corrigido aspectos problemáticos da teoria marxista, inclusive lidando com fenômenos sociais contemporâneos e explicando-os à luz do materialismo histórico, o pretenso cadáver!
O que dizer de uma palestra que critica os determinismos e as leis da história dentro do marxismo sem fazer nenhuma referência ao livro publicado em 1978 e intitulado “The Poverty of Theory" ("Miséria da Teoria”) de Edward Thompson? Neste livro, Thompson critica o marxismo stalinista e o marxismo estruturalista de Althusser (por vezes até de forma exagerada) fazendo várias retificações para futuros estudos marxistas. O que dizer de uma palestra que utiliza o mesmo metódo pós-marxista de falar do marxismo (ou do que eles acham que é o marxismo): criticam uma parte dele, geralmente ligada ao stalinismo, para em seguida, despudoradamente, generalizarem as críticas para todo o marxismo, dando por explicado o que precisa ser provado?
Acho que chegou o momento de tentar ajudar na dúvida que teve o Boaventura se ele é marxista ou pós-marxista. Não é difícil distinguir uma coisa da outra. Ora, basta reler os pontos que devem ser superados do marxismo segundo Boaventura, isso já é a resposta, trata-se de um pós-marxismo! Essas coisas são como “pegar” a mulher do amigo, mandar ele pra aquele lugar e depois querer ser amigo do cara, não dá! É um pós-marxismo também porque as críticas e as sugestões (ou aquilo que se coloca no lugar do que foi descartado) não são apenas anti-marxistas, mas anti-iluministas. O livro de Boaventura “Por uma ciência Pós-Moderna” é assumidamente anti-iluminista, e isso quer dizer descartar aspectos positivos do Iluminismo. Eu iria mais longe, isso é jogar fora potenciais revolucionários do Iluminismo. A ciência moderna, para além de vários problemas que trouxe para a humanidade, trouxe algo absolutamente fulcral para um processo revolucionário: a própria possibilidade epistemológica de revelar a exploração que sofre parte da humanidade. Este revelar dá-se com critérios delimitados e com possibilidades de verdades, ainda que estas sejam relativas às épocas históricas que as construíram. Mas essas verdades podem tornar-se dinamites que implodem as ideologias reacionárias, dando passos à frente na luta.
Por último, só como exemplo do que pode acontecer com análises de conjuntura que dispensam o materialismo histórico,
vai o link de um pequeno texto do Boaventura sobre a vitória de Obama. Em vez de classes, sentimentos de que tudo vá ficar bem; em vez de relações de imperialismo, sentimentos pós-nacionalistas; em vez de articular indíviduo e classe social, romantiza o indíviduo; em vez de revelar, mistifica. Em vez de ciência moderna, senso-comum pós-moderno...
Abraços fraternos